Retiro de Quaresma, a busca pela santificação e breves confissões

img_3862Hoje é meu aniversário e último texto antes da Quaresma, período em que abster-me-ei de muitas coisas. Minha primeira Quaresma em que me sinto verdadeiramente cristão, verdadeiramente membro da Santa Igreja. Antes meio que via a Igreja Católica como um rótulo para nós escolhermos e que esse era um rótulo bonito. Com o tempo vi que não fui eu que escolhi a Igreja, mas foi a Igreja que me escolheu.

Aproveito esse período de penitência quaresmal que está chegando para perder o vício da internet e dar um tempo nos blogs. Para os cristãos que estão lendo, convido para sair do Facebook durante esse tempo e quem sabe sair dessa rede maligna. Sair do Facebook e se dedicar a Cristo. O nosso único bem, como bem disse Santo Agostinho. Ele é o nosso único bem porque tudo o que temos hoje perderemos. O nosso ato penitencial é por amor a Cristo, para que percamos os vícios, abandonemos as nossas paixões mundanas e assim podermos dedicar ainda mais a Ele.

Ora, ninguém pratica penitência por masoquismo. É o que chamamos de mortificação. Quando deixamos os vícios e paixões de lado, passamos a focar com mais facilidade na nossa vida espiritual. Larguem o Facebook como larguei e deixem os rótulos de lado. Não limitem a busca pela verdade por causa de rótulos e ideologias. Apenas a verdade liberta (João 8, 32).

Portanto, devemos sempre buscar a verdade mesmo que vá contra o nosso gosto, contra o nosso conforto, contra as nossas paixões. Por isso devemos renunciar a nós mesmo e carregar a nossa cruz (Lucas 14, 27-33). Infelizmente vivemos num mundo onde poucos se dispõe a carregar a cruz. Inclusive cristãos berram “Eu não nasci para sofrer!”. Quem não nasceu para sofrer não nasceu também para amar. Nasceu apenas para a Perdição. O Diabo foge da cruz, não de um crucifixo, mas do sacrifício.

Ninguém mais quer enfrentar a verdade. Me perguntam “mas tal ideia não vai contra o ideal libertário?”. O que isso importa? Mais importa a vontade de Deus do que a minha ou de qualquer ser humano. Foi por isso que São Pedro disse “mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5, 29). Inclua você mesmo também nesse “homens”, não apenas os outros! Pode também reescrever o versículo em seu coração assim se ainda não entendeu: “mais importa obedecer a Deus do que a si mesmo!”.

Quando Jesus disse que devemos amar o próximo como a si mesmo (Mateus 12, 33), Ele disse que devemos amar a todos: “amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem!” (Mateus 5, 44). Quantas vezes eu mesmo desobedeci a isso? Eu era mais um fariseu do que um servo de Cristo. Não vou nem dizer que era um cristão medíocre antes de sair do Facebook porque simplesmente nem cristão eu era! Amaldiçoados serão aqueles que amam de forma seletiva! Ora, amar o inimigo não implica em abrir mão da justiça. Dar a outra face não é ser submisso ao agressor. Odiar o pecado sim, mas jamais o pecador. Ore por ele, peça a conversão dele, mas sem nunca desejar também a justiça.

Usemos esse período para nos afastar dos vícios, contemplar a verdade e nos santificar. Estamos num período negro onde os cristãos perderam o sentido da penitência, ignoram o significado da quaresma e ao invés de iniciar a mortificação, pulam carnaval. Fiquemos alerta a esse ano em que celebramos o centenário das aparições de Fátima, nesse período em que o sangue de São Januário não se liquefez no fim do ano passado e ainda um bispo aprova a exposição da imagem da Nossa Senhora no carnaval. Carreguemos a nossa cruz por amor ao Nosso Senhor Jesus Cristo nesse período difícil que passamos e por esse mesmo amor nos mortifiquemos.

In Corde Jesu et Maria, semper.

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Deixei de ser libertário?

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Santo Antão do Deserto e São Paulo de Tebas: dois santos eremitas e despreocupados com política e assuntos menores discutidos na internet. Exemplos de vida.

Esta é uma pergunta difícil de ser repondida. É visível que parei com o ativismo. Não escrevi ou traduzi mais nada e reduzi muito o acompanhamento do conteúdo relacionado ao tema. Afinal, devo confessar que o grosso do conteúdo libertário é bem nocivo dado o relativismo oriundo dos que rejeitam a cristandade. Não o relativismo ético-moral em si, mas o de qualquer dignidade ontológica humana.

Explico: o problema da militância libertária é basicamente ideológica e não intelectual. A maior parte dos libertários elabora a sua teoria ética já partindo da premissa de que não existe um agente criador inteligente por trás de nós e muito menos o Pecado Original. Obviamente que não vou aqui elaborar todos os argumentos que cheguem a tal conclusão, mas convenhamos que entre estudar o pensamento de Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho de Hípona, São João da Cruz, Réginald Garrigou-Lagrange, Blaise Pascal, C. S. Lewis, William Lane Craig, Nicolau Copérnico, Georges Lemaître, Francis Collins, São Gregório Magno, Bento XVI, Mário Ferreira dos Santos, etc, e de gente como Ayn Rand, Albert Camus, Richard Dawkins, Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche e outros ateus, o primeiro grupo é muito melhor.

O que podemos concluir com isso? Ora, antes de pensarmos em como destruir o estado ou coisa assim, é preferível cuidar da alma. Antes de pensar em me definir como libertário prefiro me definir como servo do Nosso Senhor Jesus Cristo e que não existe nenhuma outra liberdade que não seja servir a Verdade.

Certamente receberei diversas críticas sobre tal postura, mas se definir como libertário, comunista, conservador, direitista, nazista, progressista, liberal, feminista ou seja lá que raio for, não faz ninguém progredir. Tudo isso é uma postura meramente ideológica sem nenhum comprometimento com a Verdade. Eu só posso me definir como cristão e mais nada. Se eu estiver errado, isso caberá ao crítico provar isso. Desde a minha conversão, diversas pessoas se afastaram de mim única e exclusivamente pelo fato de me mostrar convertido. Depois de sair do Facebook, pouquíssimos se interessaram em manter contato e certamente devo perder mais amigos que nunca tive em realidade.

Ora, Deus nunca teve o governo em seu projeto original, corrompido pelo Pecado Original. Tampouco existirá um governo no Reino dos Céus dado que apesar do nome, ninguém pecará lá e Deus é dono de tudo. O governo, o estado dentro do seu modelo existente, não pode ser visto como além de um castigo. São Paulo o Apóstolo recomenda respeito para com as autoridades no capítulo 13 na sua famosíssima Carta aos Romanos, mas fica claro que não devemos obediência para ordens que entre em conflito com as leis que vem dos Céus. Afinal, todos os mártires morreram assim. Decerto, isso deixa a entender que pelo menos na forma atual nenhum governo parece legítimo aos olhos de Deus e assim mantenho. Mas prefiro evitar qualquer rótulo.

Por ora, deixo aqui um novo blog além do Fides et RatioO Neoteísta. Ficarei focado no que realmente importa.

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Um novo blog para buscar a Verdade

img_3124Quem segue o meu blog percebeu que ele anda paradão. Ando dando prioridade para outras coisas. Ultimamente a leitura tem sido o meu único passatempo.

Tenho focado também em um outro blog: Fides et Ratio, cujo nome é inspirado numa famosa carta encíclica do São João Paulo II. E espero que ela inspire e traga mais gente para o lado da Verdade. Sei que muita gente deve estar torcendo o nariz ou se perguntando se deixei que defender a liberdade. Obviamente que defendo a liberdade com unhas e dentes, mas é impossível conquistarmos a liberdade sem conhecer a verdade.

Mais um conselho: larguem o Facebook. Estou há cinco meses sem ele.

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A pobreza do debate sobre as drogas

Introdução – das drogas e dos grupos em debate sobre elas

Drogas, uma palavra que não deveria ser tão chocante, mas que ganhou uma conotação negativa ao longo do tempo. Geralmente hoje é usado para se referir às substâncias que geram efeitos entorpecentes nas pessoas tal como a cocaína, heroína, maconha, crack, ópio etc. A acepção mais aceita deveria ser a de qualquer substância ou ingrediente usado na indústria química ou farmacêutica. Mas tudo bem, usemos a definição mais pejorativa. Até porque ninguém deve lembrar de um remédio qualquer quando diz “droga” quando ocorre algum inconveniente consigo e hoje é muito mais comum lermos nos letreiros “farmácia” do que “drogaria”.

Temos dentre as drogas definidas na primeira acepção as lícitas (tabaco, álcool, açúcar, remédios em geral) e ilícitas (ópio, cocaína, maconha, crack etc). Aqui discutiremos as ilícitas. É justificável defender a descriminalização das drogas ilícitas?

Esqueçamos a legislação. A legislação não tem legitimidade nenhuma para proibir ou liberar algo. Um grupo de pessoas que acham que mandam em qualquer um somente porque foram os mais populares numa votação organizada ou porque a sua gangue foi mais assassina ou ameaçadora do que a gangue rival não pode ter como um guia moral imposta a população as suas preferências, opiniões e vontades. Ou seja, um conjunto de regras escritas, reescristas, alteradas e petrificadas não pode ser usada como um parâmetro moral. Se alguém que está lendo esse presente texto discordar, por favor, pare de criticar qualquer governo porque você necessariamente deve reconhecer a infalibilidade governamental no que tange a legislação.

Infelizmente as discussões sobre as drogas se define apenas em dois grupos principais: os proibicionistas e os apologistas. Se aparece algum outro grupo, esse terceiro grupo é ainda pior que os dois primeiro: os legalistas. Por ser o pior de todos, vamos falar deles primeiro.

Dos legalistas

Os legalistas se dividem basicamente em dois sub-grupos: os que querem manter algo por ser a lei independente da ética e da sua vontade e os que querem mudar a lei de acordo com a sua vontade. Mas aí entra a dúvida sobre a diferença entre a legalização e a liberação ou descriminalização.

A legalização implica basicamente em permitir o comércio e outras atividades econômicas sobre aquilo que era criminalizado. Porém, sempre com a vigia e a tributação do estado. Ora, se permite fazer algo, mas apenas sob certas condições legais, isso não está totalmente liberado. A liberação já é um termo mais abrangente, mas ainda perigoso por implicar também certas condições legais. Já que pode forçar certas instituições a ter que aceitar a liberalidade. Por exemplo, um orfanato católico ser obrigado a ceder uma adoção de uma criança para um “casal” gay no caso de uma liberação da adoção homoafetiva ou seja lá como se define tal aberração. Sei que muitos acertadamente ainda dirão que isso é legalização, mas para evitar confusões devido à abrangência do termo, evitá-lo-emos. A palavra ideal para tratarmos é descriminalização mesmo. Basicamente é a revogação de qualquer lei que impeça ou atrapalhe qualquer atividade econômica ligada a aquilo que antes era criminalizado. E é disso que estamos tratando a questão. Afinal, tratamos aqui do debate sobre as drogas independente se tiver estado ou não. Se eu disser apenas que o ideal é eliminarmos o estado, esse texto não teria mais do que duas linhas. Portanto, prossigamos.

Ora, até aqui concluímos que nenhum legalista está certo independente da sua opinião sobre as drogas. O motivo é que um, independente de ser a favor ou contra a proibição das drogas, quer manter a lei não importa o que ela diga e o outro quer mudar a lei para fazer valer a sua opinião independente do que ela diga. Não há uma opinião sensata próxima da verdadeira ética discutida. Legalistas são daqueles grupos que não são nem frio e nem quente, mas mornos. Eles aceitam a ideia de que devemos nos submeter ao que diz a legislação. Ainda que tenha um grupo (ainda mais insensato) que queira mudá-la.

Muitos legalistas, por exemplo, querem legalizar a maconha, destinar os tributos sobre ela para a educação (doutrinação) pública e tratar os viciados nos hospitais do SUS. Certamente isso é muito pior do que simplesmente proibir. Por mais que a proibição gere uma guerra ainda mais incessante entre traficantes e autoridades, ainda não tem um potencial de estrago maior do que a doutrinação nas escolas somada com a super-lotação dos hospitais públicos de viciados que estragaram a própria vida devido a uma burrice deles. É conclusivo que os legalistas nesse debate são mais nocivos e desprezíveis que os outros grupos.

Dos proibicionistas

Entramos aqui agora no grupo dos proibicionistas. Os proibicionistas são mais respeitáveis que os legalistas, já que eles uma posição, ainda que bem (mas não totalmente) errônea, independente da legislação. E por que a posição deles não é a ideal? Justamente porque viola o direito à propriedade privada. Basicamente, querem proibir alguém de ter algo em sua casa e ainda acha que a sua casa deve ser invadida por ter esse algo. E não estou falando de uma ogiva nuclear prestes a ser detonada, mas de substâncias geralmente usadas para o consumo próprio que se for para prejudicar alguém, será ele mesmo, como o jurista anarquista Lysander Spooner muito bem explicou na sua breve obra Vícios não são crimes. Os proibicionistas ainda argumentarão que as atividades econômicas envolvidas farão com que agentes inescrupulosos se fortaleçam e proliferem os crimes, mas disso tratarei mais tarde. Mas já adianto que a total descriminalização não dará mais poder para esses grupos.

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Resumindo o início da Guerra do Ópio num desenho.

Ora, vamos aqui aceitar a premissa que a descriminalização não aumenta as outras atividades ilícitas envolvendo o comércio das drogas. Mas vamos aceitar que, para sustentar os seus vícios, muitos drogados cometam crimes para obter recursos para sustentá-los. Isso é muito simples de resolver: basta punir pelos seus crimes e não pelo fim desses crimes. Proibir as drogas porque existem drogados que roubam é tão insensato quanto o estado roubar a população para dar dinheiro para os ladrões e diminuir os roubos. Se bem que isso já acontece.

Muitos proibicionistas ainda usam dentre as suas justificativas a Guerra do Ópio. Mas o problema da Guerra do Ópio na China tem uma raiz muito parecida com o vício dos créditos bancários atuais: foi algo incentivado pelo estado inicialmente. E bem incentivado, diga-se de passagem. O que o Reino Unido fez com a China não é nem um pouco diferente do que os comunistas fazem no Ocidente como bem denunciou o Yuri Bezmenov (não estou dizendo que o ex-agente da KGB era a favor de liberar as drogas. Apenas estou mostrando as semelhanças entre as estratégias de subversão). Portanto, usar a Guerra do Ópio, especialmente a primeira, não cola.

Outros lembraram de Cingapura, um país altamente desenvolvido que possui forte repressão contra o tráfico. Um país pequeno e uma mini-ditadura que faria o George Orwell achar a realidade distópica de 1984 está bem adiantada (e de fato está). Cingapura é um exemplo inválido por um motivo muito simples: não foi a sua política repressora que fez ser um país rico. Fora que esse argumento é extremamente utilitarista. O fato de uma medida antiética levar ao desenvolvimento (e não foi o que aconteceu) não a justifica. Sim, Cingapura é um lugar fácil de conseguir prosperidade econômica, mas desde que seja dentro da legislação do país, que são muitas. Cujas proibições vão desde comércios de guloseimas até sites de “conteúdo adulto” e armas.

Devemos lembrar também de um caso muito emblemático sobre como a proibição de algo causa mais danos do que benefícios: a Lei Seca Americana. Quando proibiram qualquer atividade econômica ligada às bebidas alcoólicas, surgiram traficantes, viciados terminais aos montes e toda sorte de males que hoje se vê ligados às drogas sintéticas. Ora, é óbvio que quando se proíbe algo (me refiro às substâncias e não atos intrinsecamente imorais e antiéticos como assassinatos, roubos, etc), a demanda por esse algo aumenta artificialmente e assim incentiva a atividade dos agentes mais inescrupulosos possíveis. Claro que nenhum traficante é flor que se cheire, tal como os fabricantes de bebidas destiladas e cigarros de tabaco, mas quem prolifera são justamente os que atuam fora da lei. Vale lembrar ainda que na teoria legal libertária é lícito um proprietário proibir qualquer tipo de droga em sua propriedade. Porém, isso raramente é pensado pelos proibicionistas e legalistas.

Podemos concluir que os proibicionistas têm a pior solução possível, que na verdade não soluciona nada. Mas ao menos são coerentes e sinceros no que defendem.

Dos apologistas

Geralmente se referem a eles (acertadamente) como zé-droguinhas. Os apologistas são daqueles que acham que defendem a coisa certa e procuram defender pelas piores razões. Esse tipo de gente costuma infestar o meio libertário tudo para defender não a verdade, mas a sua vontade. Tipo os libertários anticristãos e utilitaristas.

Eles são completamente irracionais, incoerentes na sua posição e devido à sua total nesciência para com a realidade não conseguem manter uma postura séria frente a um debate tão sério. Quando se perdem nos seus fracos argumentos, costumam usar apelos emocionais e tentam contar com fontes esquerdistas para fins globalistas como o Cato Institute e outros. Em suma, os apologistas são idiotas úteis dos seres mais nefastos da Terra.

Portanto, é impossível qualquer debate sério envolvendo um proibicionista e um apologista. Ambos defenderão posições burras e ilógicas e comemoram decretos estatais das maneiras mais absurdas. E sinceramente, ainda acho que os apologistas são ainda piores porque eles odeiam quando falam mal das drogas. Mesmo que quem maldiz seja alguém contra a proibição. Eles não aceitam o fato de que elas fazem mal e somente idiotas e seres infelizes a usam. O motivo? Porque eles são idiotas e infelizes. Ora, se usam algo que faz mal e não aceitam isso, são idiotas e se fazem isso e não larga, esse vício, são infelizes. É a verdade sobre os drogados.

Os drogados que querem sair do vício e não conseguem merecem total respeito e caridade. Eles devem ser tratados como qualquer ser humano que cometeu um erro em sua vida e que hoje busca a solução. Agora alguém que faz a apologia às drogas, é usuário, se gaba disso e ainda zomba dos que odeiam, esses merecem o escárnio total. Porque eles acabam com qualquer debate sério e dão munição para o inimigo (legalistas e proibicionistas) e consequentemente se tornam inimigos também.

Portanto, concluímos que a posição dos apologistas é completamente insensata e mais nociva até do que a dos proibicionistas.

Solução libertária

Todos nós temos direito à propriedade privada. Esse direito implica necessariamente o domínio total e exclusivo sobre um determinado recurso. Eu tenho o domínio sobre a minha casa e dela posso proibir e excluir qualquer coisa e até mesmo pessoas. Eu mesmo posso proibir o uso de drogas em minha casa.

Ora, uma ordem social libertária implica que todos terão esse direito exclusivo e que portanto até mesmo as vias públicas passariam a ser de propriedade privada. O que significa que os donos dessas vias poderão proibir o uso de drogas na mesma. O que é bom, já que evita externalidades (fumaças de cigarros e cachimbos e comportamentos inadequados).

Numa ordem natural, o normal são pessoas terem repulsa para com as drogas e claramente não iriam querer ver usuários ativos em ruas e praças como já se vê no Brasil, onde as ruas são públicas e o poder centralizado do estado não consegue fiscalizar. Ou seja, o problema logo não é a proibição em si, mas a violação da propriedade privada. É uma previsão lógica o fato de que numa ordem social libertária os usuários de drogas seriam bem menos numerosos do que onde elas são reprimidas por meios legais. Os potenciais usuários teriam inúmeros motivos para não usarem as drogas. Exclusão social, ausência de tratamento público e a falta de doutrinação apologética pró-droga por parte dos esquerdistas são os motivos.

Sem o estado também implica o fortalecimento dos laços familiares e de instituições privadas e da Igreja, já que a responsabilidade dos indivíduos sobre eles mesmos seria total. Não é de se surpreender que o maior responsável pelo avanço das drogas é o próprio estado e não uma liberação que simplesmente nunca existiu até iniciar as proibições, que historicamente são bem recentes.

Obviamente que para um debate saudável sobre um tema razoavelmente espinhoso – mas de solução óbvia para os libertários – que são as drogas, tem que ter o lado a favor da proibição, seja os legalistas ou proibicionistas, mas os apologistas e utilitaristas devem ser totalmente excluídos se quisermos algum resultado. Quando se trata de ética, devem ser chamados quem realmente entende dela.

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Breve mensagem de fim de ano

IMG_3385.JPGUfa! Eis o ano que se acaba. E que ano! Foi o ano da minha verdadeira conversão. Ora, antes eu não era cristão, mas mais um fariseu que se diz cristão. Fariseu? Sim, basta lembrar da parábola do Fariseu e Publicano. Está escrito nas Escrituras:

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou a distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. (Lucas 18, 9-14)

Entenderam? Fariseus que se dizem católicos são o que mais tem no Facebook. Sair do Facebook evita não só deparar com os fariseus, mas ajuda a não nos tornarmos um. Eu ainda luto contra isso, mas fora do Facebook a luta será facilitada. Como bem expressei aqui e aqui. Conta que eu inclusive já exclui. Caso um dia improvavelmente volte, não será por aquela conta.

No novo ano que iniciará recomendo fortemente a saída desse site ou pelo menos uma redução brusca do uso. E desejo um feliz ano e que Deus abençoe a todos.

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E o Brasil perdeu mesmo tantos católicos assim?

img_3253Datafolha às vésperas de Natal resolveu fazer as suas falaciosas pesquisas afirmando que o Brasil, nos últimos dois anos, perdeu nove milhões de católicos entrevistando em torno de duas mil pessoas quase três mil (se é que tal fato é verdadeiro) com margem de erro de dois porcento (?). Uma metodologia estranha, enganosa e certamente para fins funestos.

Essas pesquisas servem para um único fim: engenharia social. A Folha de São Paulo entrevista ainda dois professores bem antirreligiosos. O primeiro foi um professor de sociologia da USP, um tal de Reginaldo Prandi. Ele afirmou que a “religião deixou de ser condição obrigatória para ser bom cidadão” e que “socialmente, a religião não tem mais papel nenhum”. Em suma, para ele ser um bom cidadão (pagar impostos, seguir a legislação trabalhista, evitar comprar produtos piratas e contrabandeados, defender o aborto, casamento entre homossexuais, etc) não preciso seguir uma religião. Bem, é meia verdade, podemos ter boas pessoas sem religião, mas nenhum pessoa de má índole é cristã.

Ora, quem não segue o que Jesus ensina não pode ser considerada cristã. Não que nenhum cristão peca. Todo cristão peca, mas todo cristão odeia o seu pecado. Afinal, o que mais se vê no Brasil são pessoas que se gabam de pecar (mentir, ostentar, fornicar, etc). O Brasil tem 50% de católicos como diz o Datafolha? Quem dera! Os católicos são uma ínfima minoria. Uma ínfima minoria que vai à missa, confessa os seus pecados, comunga, que reza diariamente, que guarda os mandamentos, ou até mesmo que acredita que Jesus Cristo é o Deus encarnado. Mas depois alguém pergunta: “mas para ser cristão tem que ser tão ‘radical’ assim?” Sim, um cristão segue o que Jesus prega e não apenas acredita que Ele existiu. Se assim fosse, um ateu que acredita apenas no “Jesus histórico” seria considerado cristão. Sobre dizer que a religião não ter mais papel na sociedade, isso dispensa qualquer comentário. Como se as universidades, orfanatos, hospitais, instituições de caridade, etc, que a Igreja construiu (ela e ninguém mais) não tivessem mais valor nenhum. Obras que surgiram por pura caridade, mas que intelectuais como esse Reginaldo Prandi, que deve ser um desses ateus que gostam de parecer mais racional do quem não é, mas que não passa de um ser inescrupuloso.

Mas o pior de todos foi o Luiz Felipe Pondé. Pondé é um desses direitistas que dão muita munição para a esquerda. E as suas declarações em verdade geralmente costumam muitas vezes convergir com o pensamento de esquerda. Na notícia ele diz que “a igreja atrapalha, tira a liberdade, é excessivamente racionalista, interesseira ou contrária à pureza interior da busca da fé”. Antes de mais nada, ele não sabe a definição correta do que é a Igreja. A Igreja é o corpo de Cristo. A continuação do que Cristo e seus apóstolos continuaram e sempre defendeu tanto o uso da razão como o da fé. Pondé defende a ideia idiota kantiana de que a fé e a razão são incompatíveis. Porém, lemos na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, escrita pelo bem-aventurado Papa São Pio X e publicada em 1907:

Se alguém disser que o Deus, único e verdadeiro, criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, seja anátema (De Revel. Cân. 1); e também:

Se alguém disser que não é possível ou não convém que, por divina revelação, seja o homem instruído acerca de Deus e do culto que lhe é devido, seja anátema (Ibid. Cân. 2); e, finalmente:

Se alguém disser que a divina revelação não pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser movidos à fé senão exclusivamente pela interna experiência ou inspiração privada, seja anátema (De Fide, Cân. 3).

Em suma, a Igreja não apenas defende que a razão e a fé devem caminhar juntas como condena tanto o fideísmo (fé sem razão) quanto o racionalismo (razão sem fé). A fé pura é uma condição nociva como a razão pura. Para concluir, o Papa São João Paulo II escreveu na sua Carta Encíclica Fides et Ratio que “A fé e a razão são como duas asas que nos conduzem no voo em direção a Deus. Se você tem a fé, mas não tem a razão, a fé é cega, mas se tem a razão e não tem a fé, a razão enlouquece”.

Portanto, caro Pondé, não cola chamar a Igreja de “excessivamente racionalista”. Sem a razão, a fé não anda. Ela não deve ser pura porque se assim sempre fosse, a Igreja não teria o legado que ela deixou. Vemos a influência dela na construção de obras, na arte, na música, na ciência, no estudo de Direito, na filosofia, etc. Como seria tudo isso sem a razão que ela própria tanto defendeu?

Infelizmente, vivemos num mundo onde os humanos estão sendo desumanizados. A verdade está sendo relativizada, a moral idem e o fideísmo e o racionalismo imperam. Hoje o mundo parece ser o dos loucos e ninguém mais lamenta o fato de que o número de pessoas que buscam a verdade diminui. Muito pelo contrário, estão comemorando porque acreditam que nessa era de loucos a razão está presente.

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Breve mensagem de Natal

img_3368Natal, enquanto uns buscam confraternização, eu busco recolhimento. Outros preferem ficar na Internet querendo provar que o Natal é uma festa pagã e blá-blá-blá. Mas vamos colocar aqui a conclusão do estudo do Shemarjahu Talmun, da Universidade Hebraica de Jerusalém:

Eis, portanto, como aquilo que parecia mítico assume, improvisamente, uma nova verosimilhança – Uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em Setembro o anúncio a Zacarias e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em Março, o anúncio a Maria; três meses depois, em Junho, o nascimento de João; seis meses depois, o nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de Dezembro; dia que não foi, portanto, fixado ao acaso.

O artigo para concluir essa baboseira que compartilham você pode encontrar aqui. Infelizmente é comum compartilharem no Dia do Nascimento do Nosso Senhor ou nas proximidades aqueles dados furados que diz que tal deus também nasceu no dia 25 de dezembro. E também é comum até mesmo site protestantes compartilharem isso. No mais, lembremos que a celebração do Natal é também a superação da Luz da Verdade sobre as trevas. Ninguém mais lembra que tal dia é festival pagão. Só idiotas (como eu mesmo já fui um deles). E deixo aqui um trecho da homília do Santo Padre Bento XVI na Solenidade do Natal do Senhor de 2006:

O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino – inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade – aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo.

Sejamos simples como Deus foi, esqueçamos as nossas paixões e lembremos de quem realmente nos ama e sempre nos amará e nos amou: o Deus que se fez um bebê que esteve numa manjedoura.

Um feliz Natal para todos e Deus vos abençoe.

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Atentado em Berlim e os idiotas úteis do Islã

img_3358Recentemente um caminhão invadiu uma feira de Natal em Berlim matando doze pessoas e ferindo outras dezenas. Podemos ver que se trata de uma ocorrência atípica num evento cristão. Há alguns dias houve um atentado terrorista numa igreja copta-ortodoxa no Egito e antes disso, inúmeros e inúmeros atentados terroristas.

O que mais me deixa embasbacado é assistir a essas barbáries e ver que no Brasil tem vitimistas acusando os cristãos de “intolerância religiosa”. Eu já escrevi sobre isso e se olharmos as notícias, lá lemos comentários de pós-modernos, esquerdistas e corja de todo tipo. Mas o fato é que não existe em nenhum lugar do mundo desde os tempos pós-ressurreição de Cristo um grupo mais perseguido que os cristãos. Nenhum. Seja nos países de regime ateu, seja nas teocracias islâmicas, seja até mesmo onde cristãos são ainda uma aparente maioria.

Sem nada para frear o avanço dos muçulmanos, eles acabam proliferando. Nas escolas há um enorme esforço por parte do estado em acabar com a fé cristã. Hoje querem ridicularizar quem vai à missa, zombar de quem paga o dízimo, fazer joguinhos de palavras para mostrar que é irracional acreditar em Deus e que o único conhecimento válido é o que pode ser constatado pelos outros e não apenas por você. Uma pessoa que tem uma revelação ou é tocado pela graça acaba sendo taxada de maluca. Isso fica evidente quando Richard Dawkins afirma que o que um debatedor tem é um “delírio” e ressalva que não duvida da sinceridade dele.

O resultado disso é um desincentivo enorme para seguir a fé cristã cada vez mais reprimida e intimidada. O secularismo avança e como as sombras oriundas de Mordor vemos um processo de descristianização destruir a civilização ocidental onde sexo é definido pela “identidade de gênero” e não mais pela genitália e que qualquer um que busca a Salvação é visto como fanático.

Essas pessoas que intimidam os cristãos e que não seguem religião nenhuma são os maiores responsáveis pela invasão islâmica. São eles que em nome da diversidade e tolerância. Eles simplesmente acreditam que isso tem que implicar a permissão da invasão de bárbaros e eles incentivam ainda mais esse tipo de coisa quando comparam o Cristianismo com essa religião bárbara que é o Islã. Vejam que a própria imprensa demorou para mostrar que o motorista que matou as pessoas em Berlim é um paquistanês. Por quê? Politicamente correto.

Assim a vida segue: a religião do amor é rechaçada e a do ódio e da morte é acolhida. O George W. Bush afirmou que o Islã é a religião da paz (sim, foi ele quem afirmou isso), mas essa paz pelo visto só virá quando os “infiéis” perecerem. E com a ajuda dos seus idiotas úteis sem religião.

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Um Ensaio Contra o Libertarianismo Anticristão e Ideológico

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Santo Tomás de Aquino, inimigo dos relativistas.

Introdução

A impressão que temos hoje é de que o libertarianismo é uma ideologia extremamente dogmática, não uma corrente filosófica. Isso porque a grande maioria dos libertários atualmente são movidos por uma ideologia que eles criaram com base do relativismo iluminista. Ora, a filosofia tem como objetivo alcançar a verdade. O libertarianismo é uma doutrina filosófica ética-jurídica. E o que é ética? É parte da filosofia encarregada da investigação do comportamento. Quanto a moral, é algo mais abrangente. É o que nos orienta para o comportamento adequado para a sociedade. Logo, o libertarianismo é uma doutrina filosófica ética-jurídica com o objetivo de demonstrar que a liberdade deve ser legalmente maximizada, i.e., o estado deve ser aniquilado, uma vez que ele é legal e eticamente ilegítimo por violar os princípios básicos da ética e moral.

A moral como conhecimento objetivo e guia

Ora, a moral deve ser então algo objetivo. Ou seja, ela deve ser como é independente das opiniões e vontades alheias. A moral humana deve seguir assim a Lei Natural. Mas existe uma Lei Natural? Sim. O Doutor Angélico já afirmou que “entre todas as criaturas, a racional está sujeita à Divina Providência de modo mais excelente, por participar ela própria da providência, provendo a si mesma e às demais. Portanto, participa da razão eterna, donde tira a sua inclinação natural para o ato e o fim devidos. E a essa participação da lei eterna pela criatura racional se dá o nome de lei natural” (Suma Teológica IaIIæ, q. 91, a. 2). Murray Rothbard em A Ética da Liberdade quis demonstrar que a Lei Natural para ser constatada não seria necessário uma revelação divina ou experiência religiosa, mas que bastaria a razão. Resumindo: Rothbard procurou adequar a filosofia tomista ao racionalismo (o que não deixa de ser um erro, já que o racionalismo em si rejeita a ideia de que a fé é uma ferramenta que auxilia a razão de chegar à verdade. Em geral é visto como uma parte do fideísmo). Rothbard escreveu no primeiro capítulo:

A declaração de que existe uma ordem de lei natural, resumidamente, deixa em aberto a questão de se foi ou não Deus quem criou tal ordem; e a afirmação de que a razão humana tem capacidade para descobrir a ordem natural deixa em aberto a questão de esta razão ter ou não sido dada ao homem por Deus. A afirmação de uma ordem de leis naturais passível de descoberta pela razão não é, por si só, nem pró e nem antirreligiosa. [1]

Decerto pode não ser nem pró e nem antirreligiosa, mas o que vemos dentro de uma visão utilitarista é a rejeição da Lei Natural. Ora, como o Santo Tomás define a Lei Natural? Como a participação da Lei Eterna pela criatura racional, que é o homem. Apenas o homem é racional. Para existir a Lei Natural, é necessário que ela derive de outra maior. O homem não rouba (ou a maioria não faz isso) não porque não compensa como dizem os utilitaristas, mas sim porque é da natureza do homem evitar esse tipo de coisa. Mesmo nas mais bestiais tribos os criminosos sempre são a minoria. E esses criminosos refutam a existência da Lei Natural? Obviamente que não. C. S. Lewis deixou bem claro com relação à Lei Natural após responder a algumas objeções:

Parece, portanto, que só nos resta aceitar a existência de um certo e um errado. As pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles, da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada. Se concordamos com estas premissas, posso passar à seguinte: nenhum de nós realmente segue à risca a Lei Natural. [2]

Sim, ninguém segue à risca a Lei Natural, i.e., todos nós pecamos. Obviamente que para resolver isso precisamos de leis humanas para resolver os conflitos provocados pela desobediência da Lei Natural. E essas leis humanas não necessariamente devem derivar do estado. Leis humanas são meramente a adequação da Lei Natural à natureza humana. E pelo fato do homem evoluir, a lei humana – ao contrário da Lei Natural e a Lei Eterna – está em constante mudança. Poligamia, por exemplo, já foi socialmente aceito, assim como a pedofilia, mas isso não significa que isso já foi “certo”. Nem tudo que é socialmente aceito deve ser considerado certo. Ora, o fato de se já ter acreditado alguma vez que o sol é uma rocha incandescente não significa que ele realmente tenha sido isso no passado e hoje é uma estrela predominantemente composta de hidrogênio e hélio. A base das leis humanas é basicamente uma só: a propriedade privada.

Propriedade privada e as leis humanas

Libertários anticristãos torcem o nariz para a filosofia tomista por achar o Doutor Angélico um “estatista”. Santo Tomás não era estatista. Ele apenas fazia análises políticas dentro do contexto do seu tempo. Na época ele não tinha noção de uma sociedade sem estado. Mas as suas ideias podem muito bem ser aplicadas na teoria anarcocapitalista. Ora, segundo Santo Tomás para que serve a lei humana? Como ele mesmo responde:

[…] é necessário que sejam coibidos do mal pela força e pelo medo, para que ao menos assim, desistindo de fazer mal, e deixando a tranqüilidade aos outros, também eles próprios pelo costume sejam levados a fazer voluntariamente o que antes faziam por medo, e deste modo se tornem virtuosos. Ora, essa disciplina, que coíbe pelo temor da pena, é a disciplina das leis. Por onde é necessário, para a paz dos homens e para a virtude, que se estabeleçam leis (S. T. IaIIæ., q. 95, a. 1).

Ora, isso se aplica na nossa propriedade privada. Uma propriedade privada muito bem protegida, intimida um possível invasor. Principalmente se um dono for severo na hora de punir ou expulsar um invasor. As leis privadas não deixam de ser leis humanas e quase sempre baseadas na Lei Natural.

Quando escrevi o artigo “Lei, Justiça e Anarcocapitalismo” [3] foi justamente pensando em como uma sociedade sem estado se organizaria nessa parte. Se olhar como o Santo Tomás defende a ideia de que as leis devem intimidar os malfeitores numa sociedade com estado, vemos que essas leis teriam também a mesma função na forma privada. Afinal, o que os malfeitores fazem além de violar a propriedade privada alheia? O que é solucionar, prevenir e evitar conflitos se não justamente usando a força contra esses malfeitores?

Ademais, como concluímos que a moral objetiva existe defendendo uma sociedade com leis privadas, um exemplo de ordem social com uma organização aparentemente tão subjetivista? Podemos dizer que há um parâmetro para ver qual lugar no mundo é o melhor exemplo de uma sociedade justa. Da mesma forma que julgamos que a Audrey Hepburn era mais bonita nos anos 1950 do que a Preta Gil nos tempos de hoje, podemos reconhecer que há um parâmetro de perfeição na beleza inalcançável para qualquer mortal e que a atriz belga certamente esteve muito mais próxima desse parâmetro naquela época do que a “cantora” brasileira. Ora, o mesmo podemos dizer sobre as ordens sociais existentes. Ninguém nega que Zurique está muito mais próxima da sociedade ideal do que Havana ou Pyongyang (a menos que você seja um idiota e crer no contrário), mas eu posso afirmar de forma convicta que o anarcocapitalismo ofereceria uma ordem social mais justa e próspera do que qualquer uma existente e que essa ordem seria a que mais se adequaria aos ensinamentos que Jesus pregou no Sermão da Montanha (Evangelho Segundo São Mateus, capítulos 5, 6 e 7), uma vez que  é impossível existir uma forma de governo que chegue perto de seguir os mandamentos de Deus.

Descristianização leva ao estatismo e aos piores regimes

Pense nos regimes e governos mais despóticos, tirânicos e pobres de todos os tempos. Pense em quais lugares houveram os maiores genocídios e as piores guerras. Pense onde houveram e há os governos mais repressores na censura e onde mais há doutrinação nas escolas. Em nenhum deles verá um país com governo confessional cristão. Talvez se inclua uma ou outra “teocracia” islâmica, mas o foco é: são nos países onde há o tão pedido estado laico ou simplesmente onde cristãos foram perseguidos. Ora, vejam a China maoísta, a União Soviética, Cuba dos irmãos Castro, a Kampuchea Democrática, o Vietnã de Ho Chi Minh, a Coreia do Norte, as teocracias islâmicas e principalmente a França pós-Revolução Francesa. [4]

Por que esses regimes eram tão totalitários, genocidas, repressores, tirânicos e despóticos? Ora, não existe bem ou mal para ninguém que nega a cristandade. Quanto mais governos! Alguns retrucaram que Rothbard e Hoppe não são religiosos e aceitam a ideia de uma moral objetiva (ainda que Rothbard não tenha sido um eticista exemplar como mostra o seu escrito sobre o direito das crianças [5]), mas nenhum deles é antirreligioso. [6]

Não podemos esquecer que esses governos laicos, i.e., anticristãos, são quase todos bem democráticos muito preocupados com a desigualdade social e direitos positivos. Mesmo que um governo confessional cuja base constitucional e legislativa seja cristã não consiga ser totalmente coerente com a doutrina, é em tese impossível ser como esses governos citados. Mesmo no período da chamada “Idade das Trevas”, o estado era minúsculo e o direito de propriedade era muito respeitado (muito mais do que hoje). Mas podemos ir mais longe: Hoppe descreve os feudos como “ordens sociais sem estado”, ainda que esses feudos sejam concessões reais, eles não podem ser definidos como estados porque a sua organização não se caracteriza como um. [7]

Ora, não se pode esquecer que depois que a perseguição aos cristãos parou na Europa, a Igreja Católica passou a construir a base da sociedade ocidental que conhecemos hoje. Hospitais, creches, universidades, escolas, orfanatos, etc, só começaram a proliferar graças ao trabalho de caridade da Igreja, [8] coisa que o estado laico não está interessado em fazer. A não ser que seja com uma arma apontada na testa de qualquer pessoa que ganhe seu dinheiro honestamente (bandidos podem até ir para cadeia, mas não sofrem com cobranças incessantes de impostos).

Libertarianismo ideológico vs. busca da verdade

Para concluir esse artigo resolvi escrever essa seção um tanto provocativa. Mas o tom provocativo é bem intencionado, uma vez que o autor é uma alma temente a Deus e muito bem intencionada.

Uma coisa que percebi é que os libertários idealistas são idênticos aos ateus numa coisa: ambos são o que são por razões subjetivas e/ou ideológicas. Jamais por razões metodológicas e/ou racionais. Por que o ateu é ateu? Nunca será por razões racionais e muito menos científicas. Eles sempre colocarão razões ideológicas e subjetivas para justificar o seu ateísmo. Lembro de uma amiga lésbica que dizia que “não tem por que acreditar em um deus que condena mulheres ao Inferno por gostar de chupar vaginas”. Obviamente é um motivo bem irracional para não acreditar em Deus, seria como se sentir reprimido por não poder beber veneno por dizerem que se beber, mata. A solução para se sentir mais liberto seria acreditar que tal veneno não mata.

Mas temos exemplos mais infantis. Estes são os libertários anticristãos. Uma ordem cancerígena de libertários que teria surgido com Max Stirner, um ateu, existencialista, niilista e egoísta atomístico. Inclusive já vi um dito libertário dizer que “a ética stirneriana [considerando que Stirner tenha uma] é superior a rothbardiana ou hoppeana”. Só nessa afirmação já vemos que o rapaz não vê a ética como uma verdade a ser alcançada. Ele escolhe uma proposta de um filósofo que escreve livretos para adolescentes ao mesmo estilo de Nietzsche [9] e diz que melhor como alguém que escolhe um filme independente para assistir no cinema. Meu amigo, a ética não é marca de video-game. A ética é um debate onde não devemos procurar um vencedor para elevar o nosso ego. A ética é uma busca pela verdade! Você acha mesmo que um existencialista e niilista com conhecimento infantil sobre a religião e ética vai acrescentar algo num debate tão importante? É no mínimo uma piada de muito mau gosto!

O mesmo vale para os randianos. Eles não buscam a verdade. Eles não admiram a Ayn Rand por ela buscar a verdade, mas por atrair ovelhas pelo discurso com suas frases de efeito replicadas por aí que foram garimpadas de seus textos prolixos. Ora, a filosofia é a busca pela verdade! Não pelos ideais que dão mais resultados! Por isso que os utilitaristas como ideólogos são tão desprezíveis. A verdade não interessa a eles, mas resultados e o bem-estar. Por isso os libertários ideológicos e anticristãos também são tão desprezíveis. Eles não buscam a verdade, mas querem selecionar o que acaricia o seu ego enorme e ao mesmo tempo frágil. Eles conhecem gente de Max Stirner, Ayn Rand, David Friedman, Friedrich Nietzsche, Albert Camus, Voltaire e outros seres que só prestaram desserviço. Eles não conhecem Aristóteles, Platão, Sócrates, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho de Hípona, Santo Anselmo de Cantuária, Santo Alberto Magno, Boécio, Eric Voegelin, Louis Lavelle, G. K. Chesterton, José Ortega y Gasset, Averrois, Avicena, Mário Ferreira dos Santos, etc.

Em suma: randianos, utilitaristas, antirreligiosos, left-lib, liberais, etc, procuram fugir da realidade porque uma filosofia verdadeiramente bem exercida com o seu verdadeiro fim (buscar a verdade) é demais para eles. Santo Tomás costumava dizer que “a verdade é adequação do intelecto à coisa[10] enquanto que Michel Foucault – um dos mais nocivos, desprezíveis e insignificantes filósofos da história – costumava dizer que “a verdade é nada mais é do que uma construção do discurso, mudando de acordo com as variações e ideológicas, em diversos momentos da história”. [11] Os “libertários” citados estão muito mais com Foucault do que com o Doutor Angélico. Muitos libertários acreditam na ideologia de gênero, por exemplo. Se dissermos que um transexual é um homem que se acha mulher ou vice-versa, eles se escandalizariam. Justamente porque para eles a verdade é a adequação da coisa ao intelecto e não ao contrário como propõe o Doutor Angélico. Ou seja, eles acreditam que são Deus. Eles definem a verdade com o pensamento.

Conclusão

Libertários que priorizam a ideologia e/ou são anticristãos não podem se dizer libertários porque rejeitam a busca da verdade. Se para eles a moral não é objetiva, eles não podem sequer demonstrar que o maoísmo ou nazismo é errado.

O libertário deve defender uma moral objetiva porque somente assim o estado pode ser provado como ilegítimo. Se a moral for subjetiva, não teria porque objetarmos contra impostos, intervenções, guerras, genocídios, etc. Como o Stirner poderia ser anarquista se ele era amoral e niilista? Stirner não pode ser contra o estado se ele era niilista. Ora, se a moral objetiva e os direitos naturais não existem, como se poderia provar que o estado é imoral? Não se pode provar a imoralidade de algo se isso depende da opinião.

Os utilitaristas acusam os defensores da moral objetiva (em geral os jusnaturalistas) de “defensores do monopólio da moral e da ética”. Ora, isso é como acusar o conhecedor da tabuada como monopolizador da mesma e afirmar que o resultado das multiplicação pode ser subjetiva. Conhecimento e a verdade não podem ser monopolizados. Imagine se você viaja de trem e alguém desperta ao seu lado e pergunta como o trem está parado e a paisagem andando. Você responde que na verdade o trem está andando e que ele está enganado, aí ele te acusa de querer ser o monopolizador do movimento porque aponta de forma intuitiva dizendo que o trem está parado porque ele pega um isqueiro do bolso e joga ao alto e cai na sua mão e diz que isso não aconteceria num trem em movimento. Esse cara que acordou no meio da viagem é o utilitarista.

Por isso muitos conservadores (erroneamente) acusam os libertários de serem braços auxiliares da esquerda. De fato a grossa maioria dos que se declaram libertários realmente são isso mesmo ou coisa pior. Tudo porque são relativizadores morais. Por isso é bom deixar claro: a ordem social libertária jamais virá de uma sociedade onde a maioria da população acredita que a moral é uma questão de opinião pessoal.

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[1] Murray Rothbard; A Ética da Liberdade (São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010), p. 58.

[2] Clive Staples Lewis; Cristianismo Puro e Simples; Livro I, Capítulo 1 – “A Lei da Natureza Humana”.

[3] Disponível no meu blog, Instituto Rothbard e Foda-se o Estado.

[4] Lew Rockwell escreveu um breve e bem completo artigo sobre a França pós-Revolução Francesa: “A maldade singular da esquerda”.

[5] Rothbard se atrapalhou no capítulo 14 (As crianças e os seus direitos) de A Ética da Liberdade ao definir que os fetos podem ser “expulsos” do ventre da mãe mesmo que isso lhe custe a vida assim como os pais não poderiam ser legalmente forçados a alimentar os seus filhos mesmo que morram de fome. Hoppe não parece discordar do Rothbard, mas na introdução desse mesmo livro parece que, ao menos subjetivamente, condena o aborto, mas não o criminaliza como faz os seus colegas Tom Woods e Christopher Cantwell, por exemplo.

[6] Rothbard e Hoppe são irreligiosos (ambos agnósticos), mas não militam contra a religião como faz Stefan Molyneux e Larken Rose, por exemplo. Muito pelo contrário, ambos exaltam a importância da cristandade na economia, no papel de dar identidade cultural e moral para a sociedade e redutor de conflitos. Lembrando que a ética rothbardiana (mesmo que falha em alguns pontos) tem raízes tomistas. A ética argumentativa hoppeana já tem raízes a partir da ética discursiva habermasiana e do imperativo categórico kantiano (Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo, capítulo 7), mas as suas observações num âmbito social tendem ao reacionarismo, como vemos no conceito de expulsionismo ou remoção física hoppeana. Mas lembrando: a ética argumentativa depende da capacidade racional de argumentar e se comunicar. Isso apenas o homem pode fazer justamente pelo fato dele ser a única espécie do planeta – quiçá do universo – a ter tal capacidade. Justamente a espécie que tem a imagem e semelhança de Deus.

[7] Hans-Hermann Hoppe; Democracia – o deus que falhou (São Paulo, Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2014), p. 307.

[8] Thomas E. Woods Jr.; Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (São Paulo: Quadrante Editorial, 2011).

[9] Basta ler livros como O Único e a Sua Propriedade e Art and Religion. Max Stirner influenciou seres abjetos como Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Friedrich Engels, Albert Camus, Julius Evola, etc. Mas por ele ser um anarquista ateu, está valendo.

[10] Santo Tomás de Aquino, Questões Disputadas sobre a Verdade, Questão 1, Artigo 1 e Suma Teológica IaIæ, Questão 16.

[11] Michel Foucault, A Ordem do Discurso (São Paulo: Edições Loyola, 1996).

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Elon Musk, Uber, Trump, corporativismo e o famoso “eu avisei”

img_0969Elon Musk está muito, mas muito longe mesmo, de ser um libertário ou mesmo liberal. Nesse jogo completamente imundo, que é a política, ele adota a filosofia maquiavélica de que os fins justificam os meios e que por isso vale tudo. A notícia de que ele agora faz parte do Conselho do Donald Trump juntamente com Travis Kalanick – outro empresário corporativista e fundador do Uber que merece ser denunciado, como fez o Paulo Kogos aqui – apenas mostra isso.

O que me deixa mais perplexo é que Elon Musk preferia a democrata Hillary Clinton (que dispensa quaisquer comentários) na presidência. Motivos? As políticas econômicas e ambientais da democrata. Ele apoiava a pior candidata (dizer que ela é a pior não é o mesmo que dizer que o Trump é bom) pelos motivos mais perversos. É óbvio que ele apoiava a Hillary pelo fato da sua política o beneficiar mais. Quanto ao Kalanick, idem, ele queria a Hillary pelos mesmos motivos e ainda chegou a declarar que “se mudaria para a China se o Trump ganhasse”. É óbvio que ele não hesitaria em aceitar uma vaguinha de conselheiro se o próprio Trump o convidasse e é óbvio que os libertários utilitaristas, left-libs, randianos e todo o lado negro do meio libertário (aqueles que abraçam o establishment quando convém) comemoram.

Elon Musk obviamente manterá os planos ecofascistas (ecologismo corporativista) e o seu objetivo inútil de colonizar Marte, que virá certamente de dinheiro roubado ou de lucros distorcidos por meio de intervenções triangulares. Afinal, não existe incentivos para tal empreitada no livre mercado tem quem enxergue alguma utilidade em viajar para um planeta deserto e gelado nem que para isso se use os meios mais despóticos, i.e., acordos com o governo.

Porém, ainda assim existirá quem continue fã de um fascista* com roupagem de libertário. E vão acreditar que gente como Elon Musk, Travis Kalanick e companhia limitada fazem um bem danado ao mundo. Na verdade não passam de lobos em pele de carneiro.

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* O fascismo é caracterizado muito mais pelo corporativismo do que reacionarismo. O PT, por exemplo, é certamente mais fascista que os outros partidos políticos brasileiros. Mas sabe como é que é, esquerdistas em geral amam chamar os outros do que eles são e nos acusar do que eles fazem.

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